Dezenas de milhares de alemães, filhos de soldados das forças de ocupação aliadas enfrentaram abandono e preconceito. Muitos deles ainda tem esperança de encontrar seus pais.Tradução do Der Spiegel no G1:
Na década seguinte à Segunda Guerra Mundial, mais de 100 mil bebês nasceram de mães solteiras alemãs e pais soldados das forças aliadas. A maioria dos homens partiu da Europa sem jamais conhecer as crianças. Agora, muitos "bebês da ocupação" estão tentando encontrar seus pais antes que seja tarde demais.
Os anúncios na internet parecem sem esperança. Procura-se: um soldado americano de cabelo escuro que serviu em Schweinfurt, na Alemanha, em fevereiro de 1952. Primeiro nome, Charles. Último nome: desconhecido. O anúncio diz ainda que se alguém conhece Charles, ou se tem alguma outra informação relevante, deve entrar em contato com seu filho.
Na curtição de um baile pós-guerra, Charles conheceu uma bávara de 22 anos chamada Hanna. O casal saiu juntos cinco vezes e então Charles foi enviado a Coréia. Mais tarde, naquele mesmo ano, Hanna deu à luz um filho que chamou de Herbert.
Hoje, Herbert Hack tem 54 anos. Durante o dia ele dirige um táxi pelas ruas de Berlim. À noite, ele tem muito trabalho cansativo a fazer: procurar Charles.
Em seu modesto lar há fotos cobrindo a mesa da cozinha, mostrando tropas americanas em Frankfurt no início dos anos 50. Umas poucas caras entediadas, circuladas em azul, lembram Hack como ele era quando jovem. Mas todas têm nomes errados, por isso a busca continua.
A história de Hack é comum na Alemanha. De acordo com o Escritório Federal de Estatísticas, pelo menos 66.700 crianças nasceram de soldados aliados e mulheres da Alemanha Ocidental na década que se seguiu a Segunda Guerra. Na antiga Alemanha Oriental, estima-se que pelo menos o mesmo número de bebês tenha nascido de pais soviéticos. Os números reais provavelmente são bem mais altos. Carregando o duplo estigma da ilegitimidade e de ter "confraternizado" com o inimigo, muitas mães esconderam a paternidade de seus filhos.
Poucos pais ficaram para conhecer as crianças que tiveram em território inimigo. Enviados para a Coréia, ou de volta para casa no Texas ou Arkanas, eles deixaram para trás jovens que foram xingadas de "vagabundas" e "amantes dos Ami" (Ami é uma gíria alemã para "americano") - além de bebês que foram marcados como "bastardos".
Agora, quando eles se aproximam da idade da aposentadoria, esses filhos e filhas estão buscando com muita dificuldade seus pais americanos, franceses, ingleses, belgas e soviéticos. "Muita gente está procurando os pais agora", afirma Heinrich Rehberg, chefe das buscas da Cruz Vermelha alemã. "Nós recebemos pedidos quase diários."
Esses "bebês da Alemanha ocupada" enfrentam muitos obstáculos: vergonha e segredos de décadas, trilhas de documentos que levam a becos sem saída e seu próprio desespero. Ainda assim, muitos perseveram. Rehberg não está surpreso ao constatar que centenas deles agora estão tendo dificuldades para encarar seus passados dolorosos. "Muitos começaram a busca quando ainda eram jovens, mas encontraram algum obstáculo", por isso eles colocaram o foco no futuro, no emprego, na família, ele diz. "Agora, com tudo mais em ordem, eles recomeçaram". E o tempo está acabando caso estejam esperando encontrar seus pais vivos.
Serviços "busca-parentes"
No começo, a mãe de Erich Hones mentiu para ele. Seu pai havia sido um soldado, ela disse, morto na guerra. Mas as datas não batiam e conforme Erich ficava mais velho, começava a duvidar da história. Então, quando tinha 21 anos, sua mãe lhe deu um pedaço de papel que ela havia guardado desde 1946. Nele havia um endereço da Flórida. Hones enviou uma carta para esse endereço, mas não obteve resposta.
Foi só em 2000, quando suas próprias crianças já estavam crescidas e Hones ficou seriamente doente que ele retomou as buscas. Enquanto estava na cama, "fisicamente quase morto", que a pergunta começou a perturbá-lo: e se seu pai ainda estivesse vivo? "Foi uma necessidade instintiva", ele disse, "eu tinha que procurá-lo".
O inspetor de saúde começou então a vasculhar a internet. Ele foi até o arquivo municipal em Fritzlar e estudou os planos de batalha das tropas americanas na primavera de 1945 - ordens que provavelmente foram seguidas por seu pai. Mas logo suas buscas foram limitadas pelo seu pouco conhecimento de inglês. Um serviço de busca online parecia ser a melhor opção.
Na web, o negócio de busca de pais está florescendo. Agências com nomes como "procurando você" e "Wiedersehen macht Freude" ("o reencontro traz alegria") estão surgindo a torto e a direito, todas registrando demanda crescente.
A área inclui alguns empreendedores duvidosos, que exigem somas vultosas antes de iniciar o trabalho de busca. "Eles estão enfiando a faca", diz Rehberg, explicando que algumas firmas desonestas alimentam falsas esperanças para manter seus clientes pagando.
Em fevereiro, Herbert Hack enviou toda informação sobre seu pai para uma agência de busca em Frankfurt am Main que anunciava "experiência e expertise". Ela oferecia uma barganha: apenas 560 euros (R$ 1.515,00) para encontrar seu pai.
Há quatro meses, ele recebeu um e-mail. "Nós descobrimos que você é descendente de Charles G. Amos", dizia a mensagem. O soldado havia sido morto na guerra da Coréia. Hack pediu uma foto a agência. Pouco depois, recebeu um retrato de uma lápide com uma inscrição que mal podia ser lida. Este, uma carta afirmava, "poderia ser o irmão de seu pai".
Hack pagou a conta. Logo depois, descobriu num arquivo militar americano que, na época de sua concepção, seu suposto pai nem ao menos estava servindo em Schweinfurt. "Era puro golpe", ele afirma.
Mesmo sem decepções, as buscas podem ser muito difíceis de conduzir sem ajuda. Filhos de soldados solteiros obtêm pouco apoio do Escritório de Assuntos Estrangeiros da Alemanha ou embaixadas de antigas nações ocupantes. E alguns arquivos militares no exterior são legalmente inacessíveis a eles por causa de sua ilegitimidade.
Num arquivo francês em Colmar, milhares de arquivos de paternidade francesa das tropas de ocupação estão arquivados pelos nomes dos filhos. É uma mina de ouro para pessoas que procuram suas raízes - se elas conseguirem esperar. De acordo com as leis francesas, as informações estão lacradas até que essas pessoas completem 60 anos.
A maioria dos registros militares americanos está guardada no Registro Nacional de Pessoal Militar em St.Louis, Missouri. Lá, graças a uma decisão judicial de 1990, um arquivista dedica metade de sua semana aos casos de "bebês da guerra". Niels Zussblatt recebe 800 pedidos por ano, 70 por cento deles vêm da Europa.
Algumas perguntas ele consegue responder com uma carta de desculpas. Em 1973, um incêndio destruiu de 16 a 18 milhões de arquivos, muitos deles do período pós guerra. "Ainda mexo em arquivos chamuscados nas pontas de vez em quando", afirma o Dr. Zussblatt.
Em busca do "big bang"
Os descendentes do exército da Cruz Vermelha talvez sejam os que tiveram mais dificuldades, como Cora Anselmi sabe bem. Em seu apartamento no sudeste da cidade alemã de Bad Rappenau, ela arquivou toda papelada relativa a seu pai. Um amigo traduz as comunicações com o arquivo exército da Federação Russa, ela diz, "mas eles apenas disseram que também não sabiam de nada".
Anselmi, que trabalha cuidando de crianças, quer realizar os desejos de seu próprio pai, que morreu de ataque cardíaco há dois anos. Quando ela leu seus diários, ficou chocada ao saber o quanto ele queria conhecer seu próprio pai. "Isso pesou sobre ele durante toda sua vida", diz Anselmi.
A mais importante aliada de Anselmi na busca vive a 16km dela. Depois de décadas de silêncio, sua avó, Ruth Reich, está feliz em finalmente compartilhar com ela suas recordações de Andrei Yessayan, seu verdadeiro amor.
O casal se conheceu no baile de Ano Novo de 1945. Oficiais alemães ficaram na porta a noite toda observando os jovens alemães dançando. "É claro que ele me levou até em casa", diz Reich. "Ele olhou bem pra nossa casa e depois disse que iria voltar no dia seguinte".
Ele voltou mesmo - e continuou voltando. Ele trazia comida para a família faminta quase toda noite. Logo, a alemã protegida se apaixonou pelo orgulhoso e impecavelmente vestido armênio. "Foi o big bang", diz Reich. "Não posso descrever aquilo de outro modo".
Quando seu filho nasceu, o soldado o pegou nos braços dizendo: "meu garotinho". Reich não se importava com o que os vizinhos diziam pelas suas costas. Na rua, alguém cuspiu no seu casaco. Ela limpou e continuou andando.
Mas quando o filho completou um ano, Yessayan desapareceu. Sua senhoria disse a Reich que ele havia sido levado ao hospital militar soviético para um longo tratamento. Reich nunca mais ouviu falar dele. Mas não parou de sentir saudade dele. "Eu ainda fico imaginando que aporta vai se abrir e ele vai estar parado ali", diz a senhora de 80 anos.
Sem recursos legais
Mães como Reich tinham pouca esperança de localizar os pais de seus filhos. A liderança militar aliada protegia os soldados das alegações de paternidade e pagamentos de pensões, mesmo que seus relacionamentos tivessem sido amor, estupro ou "comércio" - sexo por alimento. Muitos comandantes enviavam para casa soldados que apareciam com namoradas grávidas. Outros aceleravam a transferência de homens que requisitavam permissão para casar com suas namoradas alemãs.
As mulheres não tinham recursos legais. A lei civil da Alemanha Ocidental pedia que os pais pagassem pensão aos filhos, mas os tribunais alemães tinham jurisdição limitada sobre as tropas de ocupação.
Em 1950, o Alto Comitê Aliado para a Alemanha proibiu "procedimentos para estabelecer paternidade ou responsabilidade com o cuidado de crianças" de soldados estrangeiros. A proibição durou cinco anos, mas mesmo assim outros tribunais tiveram dificuldade em estabelecer a responsabilidade de pais militares sobre os filhos.
Alguns desses filhos enfrentam batalhas jurídicas até hoje. Franz Anthöfer levou o caso ao extremo - ao túmulo de seu pai, do lado de dentro. Em 1996, ele ganhou a permissão de um juiz americano para que o corpo do major Louis G. Craig, de West Virginia, fosse exumado para um teste de DNA. Os resultados bateram com código genético do piloto aposentado de Bonn com 99 por cento de certeza.
Mas em outubro, Anthöfer, com 55 anos, perdeu uma batalha jurídica para se tornar o pai de seu filho. Ele estava atrasado, uma vez que, segundo as leis de paternidade americanas, a paternidade deve ser requisitada quando o filho completa 21 anos. Anthöfer pretende recorrer da decisão na Suprema Corted e West Virginia.
Tal reconhecimento, ele diz, poderia ajudar a diminuir a dor de sua infância. No orfanato onde passou algum tempo quando menino, as outras crianças o chamavam de "ami-bastardo". E os adultos encarregados de cuidar das crianças batiam nele. "Havia os bons órfãos, que haviam perdido os pais na guerra" e os "maus órfãos, que sempre seriam maus."
Deserdadas
Anthöfer não era o único filho de soldado nos orfanatos da recém criada República Federal. Políticos da Alemanha Ocidental estavam expressando preocupação com uma minoria que crescia num "clima social desfavorável", como declarou um membro do CDU em 1952, num debate em Budapeste. Ele se referia a crianças mestiças com pais afro-americanos.
Chamados de "Negermischlinge" ("mestiços de negros") pelos vizinhos e agências de adoção, estas crianças enfrentavam todos os preconceitos comuns nesses casos, mas agravados pela questão racial. Eles tinham quase três vezes mais probabilidade de serem dados para adoção e raramente encontravam famílias alemãs dispostas a ficar com eles. Suas mães eram execradas e em alguns casos, demitidas de seus empregos e deserdadas por seus familiares. Poucas dessas mulheres esperavam casar com os pais de seus filhos, até que em 1948, o exército americano foi legalmente segregado e casamentos inter-raciais foram proibidos.
Mabel Grammer, esposa de um oficial americano que servia em Mannheim, decidiu fazer algo sobre esses apelos. O casal sem filhos levou 12 crianças com eles e usou contatos sociais e profissionais para encontrar famílias adotivas afro-americanos para outros 500 nos EUA. Daniel Cardwell é um deles. Nascido em Marburg em 1950, ele foi adotado com três anos de idade por um casal negro do exército que levou um total de cinco afro-alemães.
No lar da família, em Washignton DC, as crianças foram proibidas de falar alemão. "Eu tinha que dizer o nome da minha comida em inglês antes de poder comer", afirma Cardwell. Eles também foram desencorajados quanto a perguntas sobre o passado. Foi só quando entrou na faculdade que Cardwell começou a procurar respostas. Depois de 30 anos, incontáveis pistas falsas, seis viagens à Europa e gastos de 200 mil dólares, o empreendedor descobriu apenas o seguinte: em 1950, uma alemã -polonesa de 20 anos chamada Hedwiga deu à luz um filho, Daniel, e o deixou no orfanato.
Três anos depois, ele foi transferido para um orfanato no qual Grammer coordenava as adoções. Hedwiga então emigrou para os Estados Unidos - procurando seu pai, Cardwell acredita, ou talvez seu filho. Ela não encontrou nenhum dos dois, mas em 1962, se casou. Vinte anos depois ela foi encontrada morta com um tiro na cama; sua morte foi considerada suicido.
No ultimo outono, depois de cinco anos de buscas com a ajuda do serviço de busca sem fins lucrativos GI Trace, Erich Hones recebeu uma carta do arquivo de St.Louis. Ela ficou sobre a mesa metade de um dia antes que Hessen tivesse coragem de abri-la.
No envelope estava o último comprovante de pagamento militar de seu pai. Uma notinha com as palavras: "MORTO: 20 de novembro de 2001". Hones se arrepende de ter perdido a última chance de conhecer e perdoar seu pai. "Eu o teria abraçado", ele diz.
Mas no outono, Hones recebeu uma ligação de uma voluntária do serviço de busca de soldados em Berlim. Ela perguntou se ele "estava sentado". "Encontrei seu meio irmão", ela disse. "Ele gostaria de entrar em contato com você."
Hones ficou sentado durante duas horas, a cabeça a mil por hora. Depois, começou a escrever uma carta. Nos últimos meses, ele vinha trocando cartas e fotos com um homem na Flórida chamado Ricky. Sua filha as traduz para ele. O contato tem leve, afirma Hones, mas "caloroso e com sentimento". Nas fotos de seu pai, ele vê a si mesmo com 18 anos. Ele assina as cartas com uma frase em inglês que é nova para ele: "Seu irmão, Erich".
http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL199-5602,00.html