ReviewMãe e dois filhos afogados no rio DouroNov 22, '06 7:57 AM
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O suicida é o maior covarde, o suicida que assassina os filhos para atingir o conjuge é o maior egoísta.

Uma mãe e dois filhos menores, que moravam em Paredes, foram resgatados sem vida do rio Douro, ontem de manhã, pelos bombeiros , no Torrão, Marco de Canaveses. Segundo apurámos, a mulher, de 36 anos, estava com os filhos (uma menina de nove anos e um menino de sete) dentro de um automóvel, às primeiras horas da madrugada de ontem, quando a viatura deslizou por uma rampa e mergulhou na água, causando a morte dos ocupantes. Há fortes suspeitas de que a mulher decidiu pôr termo à vida dela e à dos filhos, sendo que a filha faria amanhã dez anos.

Maria do Rosário vivia sozinha com os filhos (Catarina e António), num apartamento, junto ao campo de futebol de Paredes. A mulher atravessaria uma conturbada fase emocional, resultante de um processo de separação do companheiro com quem viveu.

Actualmente, Maria do Rosário estava a trabalhar na "Ortopedia Alfeirão" de Paredes. Pessoas que conheciam a família garantiram, ao JN, que a mulher trabalhava normalmente, sem dar sinais de depressão.

No entanto, durante o fim-de-semana, Rosário enviou uma mensagem, por telemóvel, à patroa, informando-a de que não poderia ir trabalhar anteontem. Um dia antes, no domingo, almoçou com os filhos em casa dos pais, na freguesia de Gondalães, sem que nada fizesse perceber em que estado emocional estaria.

"Estiveram os três aqui em casa, almoçaram todos e as crianças estavam bem. Ninguém imaginava tal coisa", recordaram, ao JN, os pais, José Almeida e Maria Justina Durães.

Nada faria supor, então, o que se passaria na madrugada de ontem. Por razões desconhecidas, anteontem à noite, Maria Rosário terá tirado os filhos da cama e, ainda vestidos de pijama, levou-os num Renault Clio até Entre-os-Rios, percorrendo uma distância de cerca de 25 quilómetros. Atravessou a ponte Duarte Pacheco e estacionou o carro no largo da "praia do Torrão", já em Marco de Canaveses, onde terá permanecido, pelo menos, uma hora e um quarto antes da tragédia, segundo testemunhas ouvidas pelo JN. O automóvel ficou estacionado numa rampa de acesso, voltado para o rio.

Um casal de namorados,Elisabete e Bruno, que testemunhou o caso, confirmou, ao JN, que quando chegou à zona, cerca da uma hora, viu o carro com as luzes de presença acesas e pensaram tratar-se de um outro casal de namorados. Afastaram-se poucos metros.

Só por volta das 2.05 horas é que os namorados repararam que o carro deslizara, com o motor desligado, e caíra no rio. O casal saiu do automóvel onde se encontrava e Bruno Sousa, 24 anos, pegou no telemóvel, accionando o pedido de socorro para o 112, às 2.11 horas. Enquanto isso, a namorada, Elisabete Loureiro, 23 anos, queria a todo o custo mergulhar para salvar uma das crianças que gritava por socorro enquanto o Renault Clio submergia.

Relações complicadas

A tragédia apanhou de surpresa a comunidade de Paredes e de Penafiel, onde o casal é conhecido e onde ambas as famílias gozam de muita estima. O pai das crianças, vendedor de automóveis, mal soube da notícia, entrou em estado de choque, sendo necessário recorrer a apoio psicológico.

A relação entre o casal não atravessava os melhores momentos, sendo essa uma das razões apontadas para o provável suicídio de Maria Rosário que arrastou para a morte os dois filhos. O caso chocou ainda mais familiares e vizinhos porque a filha do casal, Catarina Cardoso, fazia 10 anos amanhã.

Os Voluntários de Entre-os-Rios deslocaram-se ao local com um bote de borracha, cinco viaturas e 14 homens, e,segundo Luís Neves, comandante da corporação, os bombeiros ainda tentaram uma aproximação ao veículo, "mas a profundidade do local com cerca de sete metros, a chuva e a escuridão, levaram-nos a solicitar os mergulhadores aos Sapadores do Porto".

Cerca das seis horas o Renault Clio foi retirado da água e os corpos dos três ocupantes foram transferidos para o Instituto de Medicina Legal do Hospital Padre Américo Vale do Sousa. A Polícia Judiciária está a investigar o caso e os corpos devem ser autopsiados ainda hoje para permitir a realização do funeral, amanhã. *com Helena Teixeira da Silva

Separada há dois meses

Maria do Rosário estava em fase de separação judicial do marido. "O casal atravessou fases altas e baixas como toda a gente", contou, ao JN, uma pessoa que conhecia a família. Mas a relação deteriorou-se e, segundo a mãe de Rosário, Maria Justina, o casal "estava separado há cerca de dois meses". Porém, não terá sido a primeira vez que tal aconteceu. Apesar disso, o pai acompanhava os filhos e a mulher, garantem amigos. Colegas de trabalho do marido, contactados pelo JN, frisam que ele "evitava comentar problemas familiares no emprego". O mesmo acontecia com Rosário, que trabalhava, há poucos meses, na "Ortopedia Alfeirão". Os filhos estudavam em duas escolas de Paredes (a menina na escola básica e o menino na "primária"). As crianças revelavam um comportamento perfeitamente normal. Rosário terá entrado em depressão. "Os nervos terão tomado conta dela", confidenciou uma pessoa conhecida do casal.

"Análise do suicídio obriga a colocar de lado juízos morais"

Qualquer análise de um putativo caso de suicídio em que um dos progenitores acaba por matar também os filhos "obriga a colocar de lado juízos morais", alerta o psiquiatra Jorge Ribeiro Lume. "As pessoas vão culpabilizar quem cometeu esse acto, mas o importante é que não cedam a sentimentos de agressão ou culpabilização excessivos. E procurem ajuda para superar o impacto dessa perda". De acordo com o médico, "há casos em que o destino dos pais está tão intimamente ligado aos dos filhos que quando colocam como solução para a sua vida a morte transferem essa intensidade dramática para as crianças. Essencialmente, para os subtrair dos males da sua decisão". Ou seja, explica, "não querem matar os filhos; querem que os filhos os acompanhem. Por opção racional ou por vontade delirante". É evidente, acrescenta, que este tipo de comportamento terá sempre que ser justificado à luz "de um sentimento de desespero, de situação limite. Mas há outras circunstâncias em que a própria vontade da pessoa está alienada". "Às vezes, existe um transtorno psicótico com um envolvimento delirante, que leva a que a sua morte envolva a morte dos seus mais íntimos ente-queridos", refere. Nestes casos, que configuram na grelha das doenças mentais, o psiquiatra esclarece que "há manifestações anteriores que ultrapassam a normalidade". De resto, salvaguarda, "as pessoas que cometem suicídio ignoram a dor que vão sentir. O acto é uma agressão para elas próprias, mas é também um seguir em frente para qualquer coisa que representa o seu limite".

"Queria mergulhar para salvar o menino"

Um casal de namorados assistiu à tragédia e ainda tentou salvar a mãe e os filhos. Cerca de uma hora antes do incidente, Bruno Joaquim Sousa, 24 anos, mecânico, morador em S. Miguel de Paredes, Penafiel, foi esperar a namorada, Elisabete Loureiro, 23 anos, moradora em Rio de Moinhos, à pizarria onde ela trabalha, na cidade de Penafiel.



Elisabete saiu pouco antes da uma da madrugada do emprego e, cada um no seu carro, seguiram até às Termas de S. Vicente. Ali chegados, Elisabete deixou o carro dela e entrou no BMW do namorado. Àquela hora, o casal decidiu ir namorar para a "praia do Torrão".



"Chegámos lá, por volta da uma da manhã. Vimos o Renault com as luzes de presença acesas e afastámo-nos", recorda Bruno. "Eu até ironizei e disse para deixarmos aqueles namorados sossegados", lembra Elisabete.



Cerca de uma hora e um quarto depois, o casal ouviu um pequeno estrondo e abriu as portas.



"Vimos o carro a mergulhar. A mulher estava sentada no lado do passageiro, ao lado do banco do condutor, a tentar abrir o vidro da porta, e ao volante estava um menino a gritar, com a janela aberta. Vi o carro a afundar-se devagar e tirei o ca- saco. Queria mergulhar para salvar o menino, mas o meu namorado agarrou-me e não me deixou. Juro-lhe que se o meu namorado me deixasse, eu tinha-me atirado à água. O menino gritava muito, pedia socorro, mas a mulher não reagia e o carro afundou-se lentamente", recorda Elisabete Loureiro.



O casal garante que o carro deslizou, silenciosamente, pela rampa até cair na água. Assistiu ao submergir lento da viatura, com os ocupantes em pânico. Mas Bruno e Elisabete só viram a mãe e o filho. "O carro esteve muito tempo parado, apontado para a rampa e com a janela do condutor aberta. Não sei se o carro se destravou, ou se ela estaria à espera de adormecer os filhos para cometer o suicídio", explica Elisabete Loureiro.



Bruno telefonou para o 112 às 2.11 horas, conforme se verifica no registo que tem no seu telemóvel. Cerca de meia hora depois, chegaram os Bombeiros Voluntários de Entre-os-Rios.

Do Jornal de Notícias português.


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