Andei meio fora do ar esses dias, mas ontem chegou o computador novo, espero botar as coisas em dia...
Acho que todo mundo já viu/já recebeu por email a imagem ao lado, do padre dos balões na ilha de Lost...
Sinceramente, o padre buscava seus 15 minutos de fama, o que ele fez não tem nada a ver com fé... ok, ele já tinha conseguido voar bastante na outra vez, mas com tempo ruim, como ele teria a referência de para onde estaria indo, se abaixo dele só haveria nuvens? Pô, eu que nunca fiz nenhum vôo radical imagino isso...
Há um artigo do UOL e um texto da Barbara Gancia - esse também aborda o caso Isabella - muito interessantes, dizem sobre a personalidade do padre e sobre a formação que os pais dão a seus filhos. Reproduzo-os abaixo:
22/04/2008 - 20h13
Padre Carli foi expulso de escola de vôo por indisciplina e exibicionismo, diz instrutor
Fabiana Uchinaka
Da Redação, em São Paulo
O padre Adelir De Carli, de 41 anos, foi expulso da escola de vôo livre Vento Norte, em Curitiba, há cerca de três anos por indisciplina e exibicionismo. É o que conta Márcio André Lichtnow, instrutor responsável pelo curso de parapente que teve o padre como aluno. Carli desapareceu no último domingo no litoral de Santa Catarina depois de ter decolado de Paranaguá impulsionado por balões de gás hélio.
"Ele era indisciplinado e não participava das aulas teóricas, que são fundamentais para se compreender as questões meteorológicas. Ele não tinha nada de humilde, se acha o bom, o que conhecia tudo, o que sabia tudo. Parecia um playboy", diz Lichtnow. O instrutor afirma que o padre fez dez horas de aulas práticas e quatro horas de aulas teóricas. Para completar o curso precisaria de 40 horas de prática e 30 horas de teoria.
Durante uma filmagem para reportagem da TV local há cerca de dois anos, o padre fez uma demonstração e, segundo Lichtnow, desobedeceu as orientações de vôo. "Expulsei ele do curso, porque neste dia falei para ele voar até o local do pouso e, da cabeça dele, ele resolveu voltar para o morro do Boi, em Caiobá, litoral paranaense, em uma corrente de vento ascendente. Ele voltou para o lado errado do morro, na parte de trás, bateu nas árvores e ficou pendurado. Quando os bombeiros chegaram para fazer o boletim de ocorrência, ele disse que o instrutor havia orientado e atrapalhado o vôo", explica, ressaltando que havia testemunhas no local e a expulsão seguiu cláusula de contrato do curso de vôo livre que prevê desligamento quando o aluno coloca-se em perigo ou oferece perigo a terceiros.
Lichtnow conta ainda que o padre o procurou para falar dos planos de voar a partir de Paranaguá (PR). "Falei para ele que decolando dali o único lugar que ele poderia pousar era na África do Sul, porque é para lá que os ventos levam. Mas ele disse que já havia estudado tudo e eu achei que era brincadeira", lembra.
De acordo com o instrutor, todas as condições eram desfavoráveis ao vôo de balão. "Foi de um amadorismo impressionante, ele não fez avaliação nenhuma: no ato da decolagem, ele não avaliou o vento, porque já decolou indo para o oceano; não avaliou a cobertura de nuvens do tipo nimbostratus, porque no dia havia uma frente fria que deixa o ar turbulento e com muita concentração de água; não avaliou a temperatura, porque o gás hélio em temperaturas baixas diminui de volume e força a descida. Além disso, ele invadiu o espaço aéreo brasileiro e poderia ter batido e derrubado um avião", analisa. Pelas imagens divulgadas pela imprensa, Lichtnow calcula que o padre Carli atingiu 5.800 metros de altura e a temperatura nesta faixa era de aproximadamente -25ºC, dadas as condições meteorológicas.
"Fiquei bem menos católico depois de conhecer o padre", finaliza o instrutor, que faz questão de dissociar a figura de Adelir De Carli da escola de vôo. "Ele tentou ser meu aluno, mas não foi aceito".
Nesta terça-feira, as equipes de busca do padre acharam balões vagando pelo mar de Santa Catarina. Lanchas tentam chegar ao local onde o padre teria caído, a cerca de 40 quilômetros da costa de São Francisco do Sul.
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BARBARA GANCIA
O que querem as crianças?
Ceder a caprichos é pedir para ver o filho crescer e se tornar um adulto com baixa tolerância para a frustração
EM UM MUNDO em que alterações de humor são identificadas num piscar de olhos como transtorno bipolar e tratadas a baldes de novas drogas cujos efeitos colaterais ainda não foram devidamente destrinchados, causa alguma estranheza a história do padre que saiu voando amarrado a balões de festa? Na visão dos terapeutas de porta de farmácia, o "noviço voador" do Paraná, com seu lero-lero messiânico, não seria imediatamente diagnosticado como alguém que está passando por episódio de mania?
Em um planeta em que qualquer criança um pouco mais ativa está passível de ser identificada e, pasme, medicada como portadora de DDA (distúrbio de déficit de atenção), chega a admirar o fato de que um pai imaturo e superprotegido pela família esteja agora sendo acusado de jogar a própria filha pela janela?
Tempos atrás, distúrbios mentais, hormonais (como a depressão pós-parto) e de aprendizado eram muitas vezes classificados como farinha do mesmo saco. E quem deles sofria corria o sério risco de passar a vida trancafiado num sanatório.
Hoje existem remédios específicos para tratar desde TOC (transtorno obsessivo-compulsivo, aquele do Roberto Carlos) até males que remontam à época do onça, como a dependência do álcool. Mas embora diagnósticos, terapias e novas drogas tenham evoluído e possibilitado que gente que antes era classificada "tout court" de esquizofrênica agora possa levar uma vida produtiva e, até certo ponto, independente, por outro lado houve uma regressão.
Eu pergunto: quantas vezes o dileto leitor já não ouviu algum pai ou mãe se vangloriar de conseguir dar ao filho tudo o que ele lhe pede? Não sei direito de onde nasceu essa aberração, mas conheço casos de gente humilde que se endividou até as tampas a fim de proporcionar aos filhos mimos imbecilizantes como tênis, brinquedos e videogames.
Outro dia mesmo, na TV, vi uma destituída choramingando por não poder dar ao filho o que ela chamou de "as coisas que ele me pede". Não sei quantos pimpolhos imploram aos pais que lhes dêem a possibilidade de fazer cursos profissionalizantes no Senai ou Senac, aulas de inglês ou de piano. Imagino que não sejam muitos. Mas sei de pouca coisa menos educativa do que dar à criança tudo o que ela pede. Afinal, crianças, como bem sabemos, são volúveis e novidadeiras e mudam de idéia a cada meia hora.
Satisfazer todo capricho da petizada é a antítese de educar com responsabilidade. É pedir para ver o filho crescer e se tornar um adulto com baixa tolerância à frustração, em suma, um irresponsável.
Adulto do tipo que pode vir a bater o pé e teimar em sair voando amarrado a balões de festa ou que, depois de cometer uma atrocidade com a própria filha, liga ao pai para vir acudir e esquece de chamar o resgate.
Em vez de correr ao médico atrás de um diagnóstico específico a cada vez que o filho é repreendido na escola (no caso dos mais abonados) ou de ceder aos caprichos da prole com presentes que podem custar uma bela porcentagem do salário (no caso dos mais pobres), não seria lindo se os pais voltassem a agir como pais e deixassem de lado essa moda besta de posar de amigão do peito ou de ser uma mera caixa 24 horas?
barbara@uol.com.br